Armazem de post

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Armazem de post

Mensagem por Corvo em Qua Jul 29, 2015 1:57 pm


Welcome back to hell


Às vezes eu me pergunto como poderia ter sido a minha vida se eu não fosse um semideus, ou se minha mãe não tivesse me abandonado. Talvez se meu pai fosse realmente o homem que me adotou eu poderia ter tido uma vida normal, tranquila.
Mas, não. Meu pai é Zeus, deus do raio e do trovão, Senhor do Olimpo e rei dos deuses, então, mesmo que eu nunca tenha visto o sujeito, nunca houve nada de rasoavelmente normal em minha vida.

Os sonhos são sempre um grande problema para um meio-sangue, mas, aparentemente, Hipnos e seus filhos do departamento dos sonhos pareciam ter emfim resolvido me dar um tempo, e ultimamente eu quase não estava tendo sonhos, e quando tinha eram coisas simples. Agora, por exemplo, eu não me lembro do que estava sonhando, mas, para ser justo, não havia mesmo como lembrar depois do que estava prestes a acontecer.

Algo me fez acordar de repente, o que não surpresa já que eu tinha um sono leve. O chalé de Zeus nunca ficava completamente escuro - Talvez por ser todo de mármore branco, ou talvez porque o teto se iluminava com pequenos flash's de luz, simulando raios. Mas a questão é que havia um som extranho ali, algo como alguma coisa se arrastando pelo chão. Minha mão já havia ido em direção a adaga que ficava sobre o criado-mudo ao lado de minha cama, quando esse alguma coisa me agarrou, se envolvendo em meu corpo mais rápido do que qualquer basílisco seria capaz de fazer.
E então tudo se apagou.

Quando voltei a abrir os olhos estava em um lugar extranho e mal iluminado. Toda à minha volta as paredes pareciam ser feitas de rocha negra, e o teto era a reprodução perfeita do manto noturno, com estrelas e constelações sem fim brilhando. Mas o que chamava mais a atenção ali era a mulher sentada em um trono negro, me olhando com profundos olhos sombrios.

Era dificil ter certeza de quantos anos ela parecia ter, pois ao mesmo tempo em que seu rosto sugeria vinte, seus olhos pareciam ter vinte milhões de anos, e já terem visto tudo desda criação do mundo. Mas, de qualquer forma, só um tolo não saberia deduzir quem era ela, e eu não sou um tolo. Bem, eu acho.

Assim que eu me endireitei em pé a deusa falou, mas confirmando a minha certeza de quem era ela. Antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa que seja, a sala toda tremeu e a deusa da noite começou a recitar algo. Uma profecia? Era o que parecia, uma vez que eu não entendi porcaria nenhuma do que ela falou - Como sempre acontecia quando eu tentava ouvir uma profecia.
Minha mão esquerda foi para o alto quando ela terminou de falar, como se eu fosse um aluno pedindo permição a uma prifessora para falar.
- Um minuto - Disse - O que tudo isso quer dizer?
A deusa sorriu, um pequeno sorriso no canto dos lábios, mas carregado de travessura.
- A tempestade se aproxima, filho de Zeus, e quem melhor para para-la? - E então tudo se dissouvel, e mais uma vez a escuridão reinou em meus olhos.

Você se considera uma pessoa azarada? Acha que o destino conspira contra você? Se você pensa que os deuses adoram fazer merda com a sua vida, reconsidere, pois comparado a isso aqui você vive em um mar de rosas.
 Percebi onde estava no instante em que meus olhos viram o terreno à minha volta, e, cinseramente, de todo o coração, tive vontade de enforcar as Parcas com as suas maldidas linhas de tricô.
Duas vezes, eu fui jogado no Tártaro duas vezes! Agora estou quase começando a entender o que os monstros sentem quando nós os matamos. O único consolo era que minhas armas tinham aparecido aqui, espalhadas em um circulo à minha volta, e eu logo tratei de recolhe-las. Do cinto pendinham duas espadas, no lado esquerda a de ouro celestial e do lado direito a de ferro estígio, assim como uma adaga nesse mesmo lado; e nas costas prendi o escudo - O que me deixava parecendo uma tartaruga -, já que era melhor do que carregalo no braço a viajem inteira, e então comecei a me mover.

 Nyx havia dito qualquer coisa sobre Caos e uns caveleiros, mas a minha atenção estava na parte que se referia a Soph. Segundo a deusa, a Loirinha havia sido sequestrada e trazida para cá. Sem falar que agora eu também tinha outra preoculpação: Simon. Nyx não mencionara o bebê, mas ele sempre estava com Soph, e eu juro pelo Rio Estige que se alguém trousse o meu filho para dentro desse buraco fedorento eu afogo esse alguém no Flegetonte. Mas teria que ser para mais tarde, já que agora eu tinha outras preocupações mais imediatas - Não morrer, por exemplo.

 Na ultima vez que eu estive aqui eu não tinha memória, não sabia havia vindo parar aqui e não fazia a minima ideia do que fazer. Agora minha situação estava um pouco melhor: Eu sabia o que fazer (Bem, mais ou menos), estava melhor armada e já conhecia alguns dos perigos desse lugar.
 Para começar, minha garganta já estava seca e meus olhos ardiam com o calor. Suponho que eu também já estaria cansado com essa pequena caminhada se não fosse o vigor extra dos filhos de Zeus. À minha frente eu via um penhasco, talvez aquele pelo qual eu havia descido antes, e perto dele o Flegetonte corria como uma cobra de fogo - Uma maldita cobra de fogo, mas que era a difença entre a vida e a morte aqui.
 Sob meus pés pequenas lâminas de obsidian se partiam quando eu caminhava, e o vento no meu rosto se tornava cada vez mais quente à medida que eu me aproximava do rio. Eu estava a uns cem metros da margem do penhasco quando ouvi sons de cascos se aproximando, e foi nesse momento que o verdadeiro inferno estava para começar.  

   Me virei a tempo de ver um baio amarelo-esverdeado se aproximando pela esquerda, maior do que qualquer cavalo tinha direito a ser e com algumas partes em estado de decomposição. Mas o cavalo nem se comparava ao cavaleiro.
Devia ter dois metros e vinte, e apesar de quase todo o seu corpo estar oculto por um manto esverdeado, as partes viziveis de sua pele eram amarelas, podres. Com sua mão esquerda segurava as rédeas do cavalo, e na direita trazia um tridente negro; nas costas era vizivel uma foice, e no quadril algo semelhante a uma corrente.
 Antes que pudesse ter a chance de fazer qualquer coisa, o enorme baio parou à minha frente, e o cavaleiro olhou para mim. E eu quase vomitei cada órgão do meu corpo.
 A face do cavaleiro era da mesma cor do cavalo, amarelo com tons de verde - A cor da morte. Mas o pior eram as larvas. Dezenas delas passavam por seu rosto, visiveis por dentro da pele e saindo por buracos de podridão.
- Ajoelhe-se e morra, semideus, pois a Peste chegou e toda a esperança de vida está perdida! - Sua voz reverbou por todo o vazio, ecoando como se mil cavaleiros falassem ao mesmo tempo.
- O chão é de vidro, não vou me ajoelhar aqui. E morrer definitivamente não está nos meus planos, desculpe. - Disse, vem fazer qualquer outro movimento, apenas olhando para a figura. Uma gargalhada irrompeu da boca do cavaleiro; era uma gargalhada fria, rouca e sem um pingo de alegria.
- Tolo! - A ponta do seu tridente estava perigosamente perto do meu rosto, mas por algum motivo não fazia qualquer mensão de me mover. - Que esperança pode ter um inseto como você? Sua melhor escolha é se entregar para uma morte lim... Não, não limpa, e nem rápida, mas uma morte melhor do que a que espera se me enfrentar.
- Pela ultima vez, morrer não está nos meus planos para hoje. E quem é você?
O cavalo empinou com um relincho gutural, e seu cavaleiro desmontou. As rochas de obsidiana ao seu redor pareciam se corroer lentamente.
- Quem sou eu? - Ele esbravejou - Eu sou o Cavaleiro Peste, uma entidade mais antiga que os deuses ou titãs, anterior ao destino e a matéria, criado por Caos para anunciar o fim dos tempos e estinguir a existencia dos deuses e mortais insignificantes! Eu e meus irmãos cavalgaremos para fora desse lugar desprezivel e libertaremos Caos de seu sono primordial com a alma de cada humano que rasteja pela Terra!
- Legal - Disse em um tom monótono - Por acaso você viu uma loira desse tamanho de olhos cinzas e pele clara? Eu a perdi em algum lugar por aqui.
 O tridente dele descreveu um arco horizontal que teria arrancado a minha cabeça se eu não tivesse me incrinado psra trás, escapando do golpe por alguns poucos centimetros e desembainhado minha espada.
- Bah! Mortal insignificante, eu poderia destruir você agora mesmo, ou fazer com que passe o resto de seus dias rastejando com sangue escorrendo de todo o seu corpo.
- Sim, tentador, mas terei que negar isso também. - Disse, então avancei para ele. Me lembro de ter me achado com sorte, pois o golpe rápido passou por sua defesa e trinta centimetros de ouro celestial penetraram pelo tórax dele. Mas não houve sangue ou icor, nem gritos de dor ou vacilações da parte dele.
Peste apenas me olhou, e então sua mão me acertou no rosto, me arremeçando até a borda do penhasco.

 Tentei me por em pé novamente e percebi que meus braços estavam cheios de cortes, provavelmente das lâminas de obsidiana do chão. Quando olhei para o cavaleiro vi que minha espada ainda estava atravessada nele, e que o seu capuz havia caído. Seus cabelos eram brancos, secos e quase escassos, mas caiam até quase à altura do ombro nas costas.
 Ele arrancou a espada e a jogou para dentro do penhasco, rodopiando com uma luz dourada até sumir. O seu ferimento emanava um odor podre, de alguma coisa morta há pelo menos uma semana.
- Acha que pode me vencer, mortal? - Ele rugiu, avançando na minha direção. Eu desembainhei a outra espada e tentei um outro golpe, agora na horizontal, mas ele broqueou com a haste do tridente. De novo, agora pelo outro lado. Novamente broqueado. Tentei três, quatro, cinco vezes, mas o seu tridente sempre estava na frente, até que meus braços começaram a doer ainda mais e a espada ficar cada vez mais pesada, mesmo que eu a brandice com ambas as mãos. Havia qualquer coisa no Tártaro que esgotava as energias de quem estava lá - Talvez o ar ácido, ou o calor, ou simplesmente porque essa era a corte dos monstros e semideuses não deviam estar ali. Por fim o cavaleiro do baio amarelo afastou a minha espada com um golpe brusco do tridente e a sua outra mão se fechou em meu pescoço, me erguendo do chão.
- Nasci para matar deuses, e não será o bastardo mortal de um que irá me vencer. - Ele rosnou entridentes, apertando cada vez mais a minha gárganta até que eu não conseguice mais respirar. Então ele olhou para o penhasco e sorrio, e seu sorriso era algo grotesco de se ver. - Um abismo precede o outro - Murmurou, então me arremeçou de costas no penhasco.
 E pela terceira vez hoje fui engolido pelas trevas.

Children of darkness


  Já teve a sensação de estar caindo e nunca alcançar o chão? De que tudo se fecha ao seu redor, de que você não consegue respirar, não consegue falar, não consegue enchergar e nem ouvir? Eu estava sentindo isso, e mais.
  Muito mais.

  Em algum ponto meu corpo deve ter adormecido e o real se misturado com sonho. As trevas deram lugar a uma colina, a Colina Meio-Sangue, logo percebi. Mas... Não era ela. Quer dizer, era, mas ao mesmo tempo não podia ser. A Colina Meio-Sangue era verde, coroado por um grande pinheiro; Essa era seca, estério, e no lugar da árvore havia os restos de madeira em decomposição. Mais abaixo, no lugar onde devia estar o acampamento havia apenas um deserto de cinzas, cinzas e cinzas sem fim. O chão se rachava sob meus pés, ameaçando me engolir a qualquer momento.
 Bonito?, uma voz sussurrou, o que me vez virar procurando a sua origem. Mas não havia ninguém ali. Conheça o mundo como ele era, e como ele voltará a ser.
 O céu era azul, mas um azul escuro, turbulento, errado. O vento soprava indomito, arrancando qualquer árvore que restasse em seu caminho. Vapor exalava das rachaduras do chão, quente o bastante para derreter a pele de alguém.
Devia ter permanecido em seu acampamento e aproveitado o que te resta de vida, mortal, pois eu acordarei para restaurar o mundo ao seu estado original, a voz sumiu, e eu acordei ao mesmo tempo em que, no sonho, a terra se abria sob meus pés.

  Mesmo de olhos abertos, a visão custou a voltar aos meus olhos. Ou, talvez, simplesmente não houvesse nada para ver. Tudo era escuro, e a única luz provinha de dois objetos: das rochas, brancas como leite, muito distantes umas das outras, lembrando tótens; e de minha espada, caída não muito longe dali, brilhando desafiadora contra a escuridão.
 Apesar de não haver nenhum sinal de fratura ou distorção, sentia que cada osso do meu corpo tinha se partido pela queda - O que, deveras, era bem provavel. No mundo mortal, eu nunca me machucava muito em quedas. Geralmente eu meio que pranava até o chão, como se o ar se adensasse à minha volta e a velocidade da queda diminuisse. Mas eu não tinha ideia se isso funcionava aqui no Tártaro, onde não havia céu além de uma nuvem que lembrava horrivelmente a vapor de sangue e nenhum ar que não fosse ácido. Todavia, de qualquer forma, me levantei e cambaleei até onde minha espada estava.

 O ouro celestial era mortal para praticamente todos os monstros e meio-sangues, além de providenciar um brilho muito bem-vindo nesse momento, mas tinha se mostrado inútil contra o cavaleiro do baio amarelo. Eu ainda não tinha certeza do que era ele, mas o mesmo havia dito que seu nome era Peste e havia sido criado por Caos, o que, infelismente, não ajudava em nada. Nunca tinha ouvido falar dele, apesar de achar que me lembrava de alguma coisa sobre Caos. Ele tinha sido o primeiro de todos os deuses, a semente da árvore genealógica dos imortais, que dera origem as primeiras divindades primirdiais, e isso era tudo que eu sabia. Ei, a inteligente era a Soph, ela saberia bem mais sobre o assunto e poderia ter me ajudado.
 Mas parece que era eu que tinha que salvar ela.

 Fui encontrar minha outra espada alguns metros mais à frente, e, diferente do ouro celestial, o ferro estígio não emanava brilho ou luz, mas sim atraia as trevas para ele, formando algo que lembrava um mini buraco-negro. Recolhi ela também, mas a embainhei, ficando apenas com a de ouro na mão - Não precisava atrair mais escuridão para mim.
 Não demou muito para que eu me afasta-se das pedras brancas, ficando apenas com o brilho da espada para iluminar meu caminho. Não parecia haver nada nesse lugar, só sombras...
 Sombras que estavam se movendo.

 Só persebi a primeira quando ela estava quase em cima de mim, mas ainda assim tive tempo de colocar a lâmina da minha espada na frente do golpe dela. As espadas se chocaram, mas não houve som algum, apenas uma sensação gelada subindo por meus dedos até atingir todo o braço. Mais daquelas coisas se aproximavam, vindas de todos os lados, mas eu não era capaz de ver o que eram. Vultos escuros correndo pelo escuro brandindo espadas escuras e sem produzir nenhum som, praticamente impossiveis de se ver, quanto mais se defender daquilo.

 Minha outra mão foi para o escudo em minhas costas, que por algum milagre não havia se perdido na queda. Armado com espada,e escudo eu tinha mais chances de me defender, e talves até uma de atacar.
  Pelo canto do olho vi um dos vultos se aproximando, e ergui o escudo para bloquear o seu golpe. Assim que senti o impacto silencioso, afastei o escudo com um golpe brusco para o lado, geralmente usado para afastar a espada do inimigo, e golpeei a sombra. O ouro relampejou em um arco horizontal, cortando o vulto ao meio, que evaporou no ar.
 Era um bom começo, mas eu matei apenas um. E haviam quase quinhentos.

Como a luz da aurora, quase um quilômetro à frente, um brilho era visivel. Ali podia estar a salvação, uma chance de uma luta um pouco mais justa, onde eu poderia ver o inimigo antes de ele estar à dois passos de distancia de mim. Mas entre eu e a luz havia um quilômetro de trevas, trevas armadas com espadas. Nunca seria capaz de chegar até lá abrindo caminho pela espada antes de ser atingido pelas costas. Mas se eu ficasse aqui certamente morreria do mesmo jeito.
 Correr, está era a solução. Mas não como uma pessoa normal correria.

 Tive que matar mais uma sombra que estava atrás de mim, girando o corpo em cento e oitenta gráus e golpeando de cima para baixo, cortando ela verticalmente. Após isso voltei a girar o corpo e golpeando em semicirculo com a espada, destruindo três ou quatro sombras à minha frente. E então finalmente tinha espaço para escapar.

 Uma carga elétrica fluiu do meu corpo, estalando furiosamente contra o ar; meu corpo brilhou em azul, e quando me movi tudo pareceu estar em camera-lenta ao meu redor.
 Dois, três, quatro metros por segundo, e a velocidade almentava. As sombras não tinham tempo para atacar antes que eu passasse por elas, literalmente como um raio com a eletricidade ao meu redor. E, se alguma foce tola o bastante para estar na frenta, ela dissolvida pelo impacto do escudo eletrificado que eu mantinha erguido à minha frente.
Talvez tenha levado dois ou três minutos, mas eu finalmente cheguei onde a luz estava.
 E como é o ditado mesmo? Sair da frigideira para cair no fogo.

 A luz vinha de um grande obelisco de prata, medindo uns três metros de altura. A base era incrustada de ônix, e toda a sua estanção cobertas de runas em baixo relevo. Não entendi o que estava escrito ali, era uma língua extranha, parecendo ser muito anterior ao grego.
 Mas o que chamava a atenção não era o obelisco em si, mas sim quem estava ao lado dele. Estava envolto de sombras, mas ainda era possivel ver como ele era. Alto, de pele branca, usando uma camiseta azul e calças jeans, cabelos loiros e os olhos, os olhos de um profundo azul elétrico.
 

Doppelganger


 Já havia visto coisas assustadoras antes (Por favor, né, essa é a segunda vez que estou no Tártaro), mas não me lembro de nada que se comparasse a aquilo. Alguém alguma vez tinha dito que não havia nada, nem de longe, tão aterradora quanto nós mesmo.
 Bem, ele falava a verdade.

 Era eu, os cabelos, as roupas, os olhos... Ele era eu. Mas não podia ser. Eu era eu, e ele não podia ser eu. De fato, a única diferença estava na espada que ele trazia às costas. Não dava para ver muito dela, mas mesmo dessa distancia era possivel sentir a sua aura, sombria o bastante para causar calafrios em qualquer um.
- Quem é você? - Indaguei, apontando para ele com a espada.
- Você - Até a sua voz era identica à minha.
- Não - Dei um sorriso blasé - Eu sou mais alto.
 Ele puxou sua espada. Era longa, uma espada de duas mãos, quase toda feita em ferro estígio, menos a guarda que parecia prata. Havia qualquer coisa de anormal naquela espada. A guarda era esquelética e a lâmina saía da caixa toráxica do esqueleto, e entre a guarda e o punho havia uma cabeça demôniaca.
- Então vamos deixa-lo uma cabeça mais baixo - Falou com a minha voz, e então atacou.

 Eu nunca tinha usado uma espada de duas mãos, mas o eu-ele sabia como usa-la. A parte boa: de certa forma, eu sabia o que ele ia fazer e onde ia atacar, então podia me defender. A parte ruim: ele também sabia.  
 O seu primeiro golpe foi rápido, mas não mais rápido do que eu seria usando uma espada daquelas, e tive tempo de interpor meu escudo entre sua espada e meu rosto. O golpe foi duro, mas ainda assim consegui afastar sua espada com meu escudo, assim como havia feito antes com a sombra, e golpea-lo com minha própria espada na horizontal. Porém, ele se afastou, quase como se já esperasse por aquilo, e então logo voltou para um novo golpe. Dessa fez me abaixei e seu golpe passou por cima da minha cabeça, então deslisei a lâmina pelo ar para acerta-lo na altura do estomago e o cortar ao meio, mas o eu-ele se esquiviu para trás, e tomou distancia - Exatamente como eu faria agora.
- O que é você? - Perguntei, dando passos em um circulo pela esquerda enquanto ele fazia o mesmo.
- Você - Repetiu, apoiando a lâmina da espada sobre o ombro - Só que melhor.
- E mais humilde - Resmunguei, parando - Acho que estou perdido, que lugar é esse?
- Se você não sabe, eu não sei. Eu sou você. - Ele falou, também parando. Seus olhos me examinavam, atentos a qualquer movimento. Olhos de águia, os meus olhos.
- Como... Como pode ser tão parecido comigo? É algum tipo de demônio?
- Doppelganger.
- Saúde.
Ele girou os olhos, igual eu faria.
- Sophia sempre foi a mais inteligente - Ele resmungou - Sou sua cópia, sua sombra caminhante, é isso que o nome significa. Assim que te matar, irei tomar seu lugar no mundo mortal, ninguém saberá que não é você. Nem Soph, nem seu filho.
Aquilo tinha me irritado. Já não bastava que ele fosse identico a mim na aparencia, ele também sabia sobre a minha vida melhor do que eu teria gostado. E uma fez eu tinha jurado para Soph que não deixaria nada nem ninguém ficar entre nós.
 Eu só não imaginava que esse ninguém incruia eu mesmo.
- Bem, não vai rolar - Falei - Nunca pensei que diria isso, mas está na hora de eu me matar.

 Uma coisa que eu aprendi nas aulas de esgrima do acampamento era que uma espada de duas mãos significava mais poder em combate, mas que uma espada curta e um escudo tinham vantagem contra ela. Nesse caso não foi diferente, apenas que o eu-ele sabia manejar aquilo melhor do que eu saberia.
 Dessa vez fui eu que ataquei primeiro, descendo sobre ele com um golpe vertical com a espada, mas ele se esquivou e contra-atacou lateralmente. Sua espada se chocou novamente contra meu escudo, mas tive a sensação que o impacto foi mais forte dessa vez. Dei um passo para a direita e ataquei novamente, mas o eu-ele defendeu com a sua espada negra, afastando a minha e sedendo terreno. Outro alguém poderia ter caído nessa armadilha, mas eu era ele, e sabia que ele queria que eu avançasse para então cair sobre mim com a espada. No lugar disso, dei um passo para trás e ergui o escudo, esperando que ele viesse.
- É inútil, você morrerá de qualquer jeito. Os cavaleiros de Caos já estão soltos pelo Tártaro, e logo o sacrificio da garota despertará o deus.
- Garota... Soph? -Indáguei.
 Ele não respondeu, mas não precisava. Haviam trazido Sophia para cá, então quem mais seria?
 Meu sangue já estava quente com a luta, mas agora ele ferveu nas veias, juntamente com uma descarga elétrica que percorreu todo meu corpo.
Não me lembro de ter atacado, mas quando vi já estava em cima dele.

 Já havia lutado antes, diferças vezes, mas essa era uma dança extranha. Ambos pareciam saber o que o outro faria, e então suas armas estavam lá para defender e atacar, sempre defendendo e atacando. Foram várias sequencias de ataques, contra-ataques e esquivas, até que eu me atrasei meio segundo, mas em uma batalha meio segundo é um ano inteiro, e sua espada atingiu minha coxa esquerda.
 Foi um golpe de raspão, não abrindo mais do que um pequeno corte superficial, mas ardeu como se fosse ácido. No entanto não deixei que a dor transparece-se, e ergui o escudo para parar o seu próximo golpe.
  Minha espada estava eletrificada, mas isso de pouco adiantava se eu não consegui-se atingir ele - Ou atingir eu, sei lá. O golpe seguinte dele veio cortando o ar pela horizontal, e eu esquivei me abaixando e dei uma estocada.
 O próximo som que ouvi foi o de metal rasgando couro.

Quarenta centimetros de ouro celestial perfuraram meu tórax, mais do que o suficiente para transpassa-lo, mas a sorte é que foi no corpo dele. Sua espada caio de suas mãos, fincando a ponta no chão. O sangue que escorria de seu ferimento era dourado, não vermelho. Icor, não sangue. Ele nunca foi humano, nunca foi eu.
-Copia mal feita - Murmurei, olhando a vida deixar meus olhos no corpo dele. E então ele evaporou em sombras.
 Tudo o que restou foi a espada fincada no chão. Era uma espada bonita, reparei, mas era errada. Podia saber disso apenas olhando para ela. O erro não estava em sua forma ou no metal, mas na aura que ela emanava. Sombria. Morte. Mas ainda assim algo me fez pegar ela, como se minha mão tivesse sido atraiada até ela. No instante em que a toquei senti uma raiva se espar por meu corpo, um ódio mortal contra alguém, mas não sabia quem. Pensei em Soph e em quem queria fazer mal a ela, e quis matar aquelas pessoas da forma mais crueu possivel. Soltei a espada, mas não antes de ouvir um sussurro em minha cabeça, um nome.
Soulcry

 
O cavaleiro do baio amarelo


  O medo é uma palavra muito forte e que se apodera de um herói a cada novo obstáculo em seu caminho, só que não existem obstáculos que não possam ser superados e não existem batalhas que não possam ser vencidas. Eu havia aprendido da pior maneira que o medo não era algo a se temer e sim apenas mais uma barreira que se deveria vencer para se tornar mais forte e assim poder cumprir o que lhe foi destinado a fazer.

  O local estava frio e só se podia ouvir o estalar dos ossos sendo quebrados sob meus pés quando eu pisava no chão, catacumbas e passagens a muito esquecidas e paredes cobertas por teias de aranha e insetos nojentos, o breu era total. Em todo o caminho, em nenhum momento eu tinha parado de pensar na Loirinha - Também conhecida como Sophia. Então quer dizer que ela seria tributo de um ritual? Não poderia permitir aquilo, teria que salva-la de todo jeito, meu coração comprimia cada vez mais dentro do peito só de pensar no que poderia acontecer com ela... No que já pode ter acontecido. Não, não posso pensar assim. Soph ainda estava bem, eu sei que sim.
E se não estiver, o responsavel vai pagar, nem que eu tenha que passar todos os monstros do Tártaro pela espada.

 Se me perguntarem o porquê eu não saberia responder, mas agora eu trazia aquela espada negra presa às costas, sob o escudo. Apesar da sua aura maligna - ou, espero que não, por causa dela - eu acabei por ficar com ela.
  Agora eu estava com frio. Nunca imaginei que fosse possivel ficar com frio aqui, onde o calor era tanto que doia até respirar, mas eu estava tremendo de frio. À minha volta dava para ver os contornos de lápides e tumbas... Existe um cemitério no Tártaro? Cara, alguém precisa mapear esse lugar.
 Em algum lugar escutei o grasnar de um corvo, e então outro, e outro, até que pareceu que havia uma centena de aves corvejando ao mesmo tempo.
  O som era cortante, e parecia reverbar dentro da cabeça - Ou, talvez, fosse apenas o eco. Quando me virei para procurar a origem do som, me deparei com duzias de pares de olhos me observando, miudos, vermelho como sangue, empoleirados no alto de uma árvore seca.
 O som fazia os pelos da minha nuca se arrepiarem, mas me vitei e continuei caminhando. Para onde eu estava indo? Eu sequer estava indo para algum lugar? Aquela lápide não é a mesma pela qual eu havia passado há... Dez minutos? Meia hora? Um ano?
 Crow, crow, crow

 










Corvo
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