Rosa Negra

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Rosa Negra

Mensagem por Corvo em Ter Fev 02, 2016 10:47 pm

O homem foi trazido por dois membros da Irmandade, com as mãos algemadas para trás e a cabeça coberta por um saco de cor bege. 
   Aryana podia ver com clareza o desespero dele mesmo sem enxergar seu rosto, um sentimento que lhe era familiar em seus anos de adolescência. Ele foi trazido até o grande salão de reuniões, onde os quinze membros da Irmandade o esperavam sentados em cadeiras no canto oposto ao da porta, formando um semicírculo em volta de uma cadeira no centro da sala. Os dois que o arrastavam o fizeram sentar na cadeira e arrancaram o saco de sua cabeça, revelando uma face de alguém que havia acabado de sair da adolescência. Tinha cabelos castanhos, pele clara e usava roupas velhas e desbotadas. 
   O homem olhou para todos ali, todos usando roupas iguais, que consistiam um trajes negros com capuzes para lhes esconder o rosto. Parecia incapaz de falar, e o único som que se ouvia era o da sua respiração. Até que Nêmesis falou de sua cadeira no centro do semicírculo:
    - Você é Eduardo Morais Araújo? 
   O pai da Irmandade tinha uma voz grossa, firme, que fazia você se encolher e pensar no que havia feito de errado. Aryana respeitava o dono daquela voz, assim como qualquer um em seu perfeito juízo faria. 
   O homem que estava sendo julgado, entretanto, estava assustado demais para saber disso.
    - Eu... Quem são vocês? O que eu estou fazendo aqui? - Disse com a voz trêmula.
    - Responda, você é ou não Eduardo Morais Araújo, vinte anos, residente de Madureira? - Seu tom foi mais impaciente, mais frio.
    - S-s-sim... - Gaguejou. - Por quê? 
   Agora foi a vez do homem ao lado direito de Nêmesis falar:
    - Você está sendo julgado pelo estupro e assassinato de Diana Carter, uma garota de dezessete anos de idade, residente de Olaria, no dia vinte e quatro de Janeiro desse ano. 
   Quem falou era Caronte, que ocupava uma função semelhante a administrador. Era um homem na casa dos cinquenta anos, talvez cinquenta e oito. E claro, Caronte não era seu nome de verdade. Na verdade, com exceção de Nêmesis, ninguém ali sabia o nome de ninguém, assim mantendo o segredo da Irmandade em segurança. 
    - Você confirma as acusações e confessa o crime? - Nêmesis voltou a falar.
    - Eu... Eu não... Eu não fiz isso, eu não sei quem é ela... Nunca a vi...
   Ela podia ver as mãos do homem (que agora estavam presas à cadeira) tremendo enquanto ele olhava para os lados procurando uma saída. 
    - Nós interrogamos uma testemunha que diz ter visto você com a garota entrando em seu carro às vinte e duas horas, horas antes de o corpo dela ser encontrado. - A voz de Caronte era sempre baixa, suficiente apenas para ser ouvida por quem estava próximo. 
    - Eu não... Não sei quem é ela... - Ele olhava para os seus juízes com a face também trêmula, passando os olhos por Nêmesis, Caronte e Aryana, uma das poucas mulheres que havia ali.
    - Também foi encontrado resíduos de sangue no carpete do seu carro cujo DNA bate com o dela, o que confirma que ela esteve lá.
    - Isso não é verdade... - Engoliu em seco, voltando a olhar na direção de Aryana - Vocês não tem o direito de me manter aqui, eu não posso ser julgado dessa forma... Eu tenho direito à um advogado...
    - Rá! - A voz de Janos foi ouvida de um dos cantos mais afastado do lado esquerdo, jovem e arrogante tal como ela é. - Advogados são mentirosos e hipócritas, pagos para defender escória como você. Um homem deve saber se defender sem a ajuda de outro.
    - Não usaremos advogados aqui. - Caronte completou. 
    - Mas...
    - Silêncio!
   O homem voltou a engolir em seco quando Nêmesis falou. 
   Essa sensação de poder, de ver os outros com medo de você e não o contrário era algo novo para Aryana que havia crescido nas ruas. Ela já havia participado de doze julgamentos, e em todos os réus agiam de maneira muito similar. Os mais velhos tentavam intimidar, gritar, e reivindicar os seus direitos, enquanto os mais jovens se desesperavam e ficavam à maior parte do tempo sem saber o que dizer.
    - Esse tribunal reconhece as provas que vão contra o réu e levará em conta a versão apresentada pelo mesmo - elevou a voz. - Portanto, quem for a favor da condenação e execução de Eduardo Morais Araújo pelo estupro e assassinato de Diana Carter, peço que levante a mão. 
   Janos foi o primeiro, como sempre, e a ele se seguiram os outros, até que Aryana também levantou a dela.
    Nêmesis se levantou da cadeira e encarou o homem, que agora murmurava qualquer coisa que ela não podia entender e tentava libertar as mãos. 
    - Em nome da Irmandade da Rosa Negra, eu, Nêmesis, o sentencio à castração e enforcamento, tento seu corpo exposto em área pública para que sirva de exemplo para os outros.
   Os mesmos homens que o trouxeram o levaram de volta, enquanto o salão era preenchido pelos seus gritos de protesto.

Corvo
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Re: Rosa Negra

Mensagem por Corvo em Qua Fev 03, 2016 3:36 pm

Era uma noite chuvosa, dessas que fazem as pessoas fecharem as janelas e se recolherem em suas camas. 
   Um raio cortou o céu quando duas figuras em negro saltaram do telhado direto para o quintal da casa. Uma era alta, magra e mantinha a cabeça sempre erguida; a outra era mais baixa, esguia e determinada.
  Ambos usavam o mesmo modelo de vestimenta, que lembrava um traje ninja. Era completamente negro para se camuflar à noite, cobria todo o corpo até o pescoço e no tronco e antebraços era revestida com finas placas para proteger contra armas brancas.
   A invasora mais baixa olhou ao redor, analisando o terreno à sua volta. O chão estava coberto de grama molhada e lama, próximo à cerca havia um balanço de metal, uma piscina no centro e uma caixa de areia. Nos rostos haviam máscaras do mesmo tecido negro, porém que cobriam apenas do nariz para baixo.
    Ele tem filhos, ela pensou.
   - Está é mesmo a casa, Greywolf? - A voz de Janos soou estranha através da máscara de pano, principalmente por estar mais baixa do que geralmente a mantinha.
  "Greywolf" era o cognome de Aryana, dado por Nêmesis quando ela se juntou a Irmandade.
   - Sim... - Aryana murmurou.
   - É uma casa bem grande, não vai ser muito fácil tirar ele lá de cima.
    Ele estava certo, ela pôde notar. A casa tinha três andares, e pela planta que eles haviam estudado o quarto ficava no último andar.
   - Vai ser como qualquer outro trabalho. - Falou em tom cortante,  caminhando até a porta dos fundos para analisar a fechadura. - E é melhor que cale a boca, antes que alguém escute você.
  Ela ouviu uma risada na é os sons dos passos de Janos se aproximando, mas não desviou a sua atenção da fechadura que agora a mesma tentava arrombar.
  Idiota arrogante, pensou. De todos os irmãos da Rosa Negra com quem ela trabalhou, Janos era o que ela menos gostava. Por azar, também tinha a mesma idade que ela, então eram quase sempre postos juntos. O garoto era arrogante, intrometido e prepotente, gostava de se vangloriar e chamar atenção. Mas, tinha que admitir, ele possuía um senso de justiça impressionante. Um pouco antiquado, na verdade, mas se pensasse bem todos os outros também tinham um senso de justiça antiquado.
   - "Greywolf" - Ele disse como se testasse a sonoridade da palavra. - É um belo nome, o que fez para consegui-lo? - Como viu que ela não responderia, continuou: - Quero dizer, ele não sorteia os nomes aleatoriamente, não é?
  *Click*
  A fechadura finalmente se abriu e ele logo tomou a frente, mas Aryana não se moveu quando ele passou. Teria sido a pergunta, a chuva ou o som da porta se abrindo? Não tinha como saber, mas a mente de Greywolf de repente voltou para o passado, um passado que ela jamais poderia esquecer.

  A chuva batia contra a janela, uma infinidade de tiros d'água furiosos contra a vidraça do velho apartamento. Aryana, uma Aryana de quinze anos, estava deitada em sua cama ouvindo música pelo fome do aparelho celular enquanto lia um exemplar de Harry Potter e o Cálice de Fogo. Na verdade ela estava distraída, divagando sobre a história e como funcionavam as novas regras de segurança do Ministério da Magia e quem diabos acharia seguro colocar adolescentes para enfrentar dragões.
   Interrompeu seu devaneio quando ouviu a porta se abrir e seu pai se esgueirando para dentro do quarto.  Mesmo dessa distância ela podia sentir o bafo de bêbado.
  Ela levantou o tronco, ficando sentada na cama.
   - O que está fazendo aqui? - Indagou para o sujeito barbudo parado à porta.
  Ele não falava nada, apenas a olhava. Alguma coisa naquele olhar a deixava desconfortável, e não melhor nada quando ele começou a se aproximar.
   - O que você quer? A mãe ainda não chegou.
   - Eu sei - murmurou quando estava na beirada da cama. - Por isso o papai está aqui.
  Ela fez menção de se afastar, mas ele foi mais rápido e segurou no pé dela a puxando de volta. No instante seguinte ele estava encima dela, segurando ela com uma mão enquanto tentava beija-la. Aryana tentava afasta-lo e se debatia mas ele era muito mais forte e mais pesado. Sua mão apertava o corpo dela enquanto ele tentava forçar o beijo. Sentiu sua blusa se rasgada e a mão dele em seus seios. A mão dela encontrou o livro caído ao seu lado e o usou para golpear a cabeça dele duas vezes, enfim conseguindo fazer com que ele se afastasse um pouco dando a chance dela rolar para fora da cama.
  Aryana tentou correr para fora do quarto mas ele a agarrou por trás, erguendo ela do chão e beijando seu pescoço enquanto a mesma esperneava e gritava para que ele a soltasse. Ele a jogou no canto oposto ao da porta, fazendo com que ela batesse com o rosto no chão e sentisse gosto de sangue na boca.
   - Não... Saí daqui! Saí! Não...
  Ela começou a gritar quando ele tirou a calça e avançou na direção dela, rapidamente tampando sua boca com uma mão enquanto terminava de arrancar o que havia sobrado da sua blusa e tentava tirar seu short.
  Lágrimas saiam dos seus olhos, ela tentava xinga-lo mas sua voz era abafada pela mão em sua boca. Seus chutes não causavam efeito aparente e ele continuava a arrancar a roupa dela, até que acertou um bem entre as pernas dele e ele a soltou por um instante devido a dor.
  Aryana tentou correr mas o short que agora estava abaixo do joelho a fez cair de novo, forcando-a a tentar engatilhar até a saída. Sentiu quando a mão dele agarrou o seu sutiã por trás e fez o prendedor arrebentar com um puxão, mas ele o segurou com uma mão e se lançou pela porta caindo no corredor.
  Com a respiração descontrolada, os olhos mal podendo enxergar por estarem transbordando de lágrimas e a boca cheia de sangue, Aryana correu em direcao à cozinha deixando o short para trás. Podia ouvir os passos se aproximando e os xingamentos mas não parou para olhar. Atravessou a cozinha em direção à porta de saída, mas ela estava trancada.
   - Filha?  
  Seu pai estava na porta da cozinha, apenas de cueca olhando para ela.
   - Você está sangrando. Vem cá, o papai cuida de você. - Ele foi contornando a mesa enquanto ela tentava se afastar fazendo o mesmo. - Vem, não precisa ter medo. Vem.
  Desesperada, Aryana agarrou a faça que estava sobre a pia e a apontou para ele.
- Fique longe! Fiquei longe senão eu...
O que aconteceu a seguir foi muito rápido e ela nunca chegou a ver. Ele avançou contra ela e agarrou em seu pescoço, então ela golpeou com a faça o estômago dele uma, duas, três vezes, até que ele caísse no chão se contorcendo em uma poça de sangue. Então ele parou de se contorcer.
Seu corpo todo tremia, suas mãos estavam sujas de sangue e ela estava seminua. Encostada na geladeira, ela foi escorregando até que sentou no chão. Lágrimas jorravam de seus olhos enquanto ela soluçava. Não conseguia olhar para o corpo no chão.
Então sua mãe chegou.

- Olá, helo, Terra chamando Greywolf. Garota, temos um sequestro em andamento aqui! - A voz de Janos a despertou de seu flashback.
Ele estava parado no lado de dentro da casa, acenando para ela se mover enquanto acolha vá impaciente.
Idiota, idiota, idiota, idiota!, gritou com ela mesma em pensamento. Já se passaram cinco anos, esquece isso.
Greywolf apenas acenou com a cabeça e se adiantou para dentro da casa também. Logo percebeu que estavam em uma cozinha, dessas de gente rica que mora no Guarujá. Só de lembrar de onde veio o dinheiro para comprar tudo isso já a fez voltar a se concentrar na missão.
Mark Esperanza era deputado do Rio, foi acusado de desvio de dinheiro um ano atrás, porém o caso foi abafado e esquecido. Mas Nêmesis e Caronte se lembravam, lembravam dos vinte e cinco mil reais que simplesmente desapareceram antes de chegar no seu destino.
Bem, talvez esse não morra, se lembrou que ladrões geralmente só tinham os dedos ou as mãos decepadas e então eram soltos em lugares aleatórios pela cidade, nus.
Ela seguiu Janos enquanto ele subia as escadas em silêncio até o terceiro andar e então pelo corredor, parando na última porta. Aryana entrou primeiro, sem fazer barulho e atenta a qualquer movimentação. Tudo estava escuro, mas ela podia ver que ele estava deitado na cama. Também havia uma mulher ali, a esposa dele provavelmente. Ela caminhou na direção dela enquanto Janos foi para o lado dele, ambos retirando um frasco com sedativo do cinto. Tinha tudo para dar certo, não fosse...
- Papai?
A luz do quarto se ascendeu. Havia uma garotinha de no máximo seis anos parada ali, olhando assustada para as duas figuras de negro.
Ela não conseguiu ver direito como aconteceu, mas em uma fração de segundo o homem na cama pegou um revólver de só Deus sabe onde e tudo que ela ouviu foi o som do disparo e Janos caindo no chão. A mulher é a garotinha gritaram, então a mãe tentou correr na direção da filha mas Aryana a segurou, então ouviu outro disparo e a mulher também caiu. Ele havia errado o tiro e acertado ela. A menininha gritou pela mãe e correu na direção dela. Aryana então pulou sobre o homem antes que ele atirasse de novo e arrancou a arma das mãos dele e acertou um soco na cara dele para desnortea-lo, então rolou para o chão caindo ao lado de Janos.
O garoto ainda estava se mexendo, mas sangrava muito. Ela tentou levanta-lo mas ele gritou de dor.
- V-vai... - Murmurou com a voz distorcida pela máscara e pela dor.
- Eu... Eu não posso te deixar aqui... Eu...
- Vai!
Isso não está acontecendo, não pode estar acontecendo.
Não tinha como carrega-lo pelas escadas e a única saída dali agora era a janela. O garoto não parecia capaz de se mover, então provavelmente uma queda dessas o mataria. Além disso, o homem que eles deveriam ter capturado estava se recuperando e prestes a levantar.
- Me desculpe...
Sussurrou, então se virou e correu na direção da janela. Eram três metros até o chão, mas ela simplesmente pulou.

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